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A Bruna filha

  • Foto do escritor: Bruna Da Costa Pereira
    Bruna Da Costa Pereira
  • 14 de mar. de 2025
  • 4 min de leitura

Pensei bastante no que escrever. Surgiram alguns temas. E, finalmente, lembrei-me de uma história para compartilhar. Ao contrário da maioria dos textos, esse não é um fato sobre o meu maternar. Hoje, falarei sobre a Bruna filha. 

Pois é, eu já fui criança. Antes de ser mãe, fui filha. E nem tanto tempo assim. Acreditem. Bom, pelo menos, em minhas memórias. Alguns fatos marcam nossas vidas, não é mesmo? Acontece que essas marcas nem sempre são boas.

Imaginem agora um efeito de filme voltando no tempo, tá? Voltaremos em minha infância. Na época, eu tinha onze anos. A minha irmã, seis. Estávamos voltando do supermercado. Minha mãe, Deda (apelido de Brenda) e eu. 

Infelizmente, morávamos longe e teríamos que andar várias quadras para chegarmos em casa. Logo na saída do mercado, lembro-me que eu e minha irmã começamos a brigar para ver quem seguraria a mão da mamãe. Por conta das sacolas de compras, ela estava com apenas uma mão livre.

O ciúme entre irmãos é algo mais comum do que pensamos. Esse sentimento aparece quando nos sentimos ameaçados por algo ou alguém. Quando temos a sensação de que perderemos; a amizade, o amor ou o afeto de que tanto precisamos.  

No meio daquele bate-boca entre duas crianças enciumadas e sedentas de um gesto de carinho, minha mãe me disse a seguinte frase: “deixa ela (se referindo a minha irmã), ela é minha companheira”. Aquele foi o pior balde de água fria que já recebi na vida.

Ainda hoje, neste momento, sinto meus olhos marejados ao revisitar aquela cena. Obviamente, senti-me muito desprezada. Foi como se minha mãe não me amasse. Fiquei com tanta raiva. Tanto ciúme. Após ter ouvido aquilo, andei bem mais rápido. 

Tudo que eu queria era ficar longe delas. Fui cada vez mais depressa, até não enxergá-las mais quando me virava para trás. Chorei durante todo o caminho. Finalmente, cheguei em casa. Consumida pela raiva. Cheia de ódio. Querendo sumir. 

Sumi. Peguei meu cachorro - que parecia ser o único a me amar naquela casa - e saí. Fui para um ginásio ali perto. Assisti a um jogo de futebol (mesmo sem gostar). Encontrei uns amigos. Conversei, ri. Passei o dia inteiro lá. Nem almocei. 

No fim da tarde, eu não tinha outra opção. Precisava voltar para casa. Portanto, voltei. No entanto, fiquei dias sem falar com minha mãe. Estava com tanta raiva. Eu me sentia tão desvalorizada. Acreditava não ser digna de amor. Pensei em tantas coisas ruins. 

A semana foi passando. Só o que não passava era aquele aperto no peito. A vontade de gritar, de chorar, de perguntar para minha mãe o motivo de ela não me amar. Ou me amar menos. O que existia de errado em mim? O que ela pensou ao preferir Deda?

Se eu pudesse, teria saído de casa naquele momento. Como eu era uma criança, fiquei. {Fiquei} Remoendo aquela frase. Sentindo indignação, injustiça. Odiando a minha irmã. Elaborando inúmeros planos para me vingar da minha mãe. Eu só queria me sentir amada. 

Foi então que, na sexta-feira - bem cedo - antes de eu sair para a escola, a minha mãe me chamou para conversar. Ela estava sentada no sofá com um olhar triste. Perguntou-me o que estava acontecendo. Respondi : “nada”. Mesmo querendo dizer tudo. 

Ela foi direto ao ponto. Pediu desculpas pelo o que aconteceu. Falou que estava magoada com a situação e implorou para que eu não ficasse mais sem falar com ela. Eu não me sentia segura para expressar minhas emoções. Só consegui responder um breve “tá bom”. 

Ao me abraçar, minha mãe disse em tom de brincadeira: “vem aqui, ciumenta”. E eu percebi que ela não entendeu o mal que me fez. Meus sentimentos não foram levados a sério. Não como deveria. Não como eu gostaria. Minha dor foi diminuída. E minha mãe nem percebeu. 

Isso não é um julgamento. Entendo que agimos de acordo com nossa história. Para ela, talvez fosse normal não dar tanta importância ao sentir. Eu sei. A Bruna, de onze anos, não sabia. 

Essa história viveu em mim durante todos esses anos. O sentimento de rejeição esteve comigo por onde eu fosse; no trabalho, nos relacionamentos, na amizade, no amor. Ao sentir insegurança ou ciúmes, eu demonstrava com raiva, dando tratamento de silêncio e tratando a pessoa de forma desrespeitosa. 

Até que um dia, minha psicóloga disse para eu escrever uma carta para minha mãe. Logicamente, essa cena surgiu em meus pensamentos. Chorei bastante. Despejei aquela raiva guardada por trinta anos. Trinta anos remoendo aquela frase e as sensações que derivaram dela. 

Passei anos me sentindo a pior pessoa do mundo. Por essa e outras histórias da minha vida. Pelas feridas de rejeição, injustiça e desamor que carreguei. E ainda carrego. Por todas as dores não curadas e invisibilizadas. 

Mesmo hoje, ainda me dói relembrar, sabe? Derramei muitas lágrimas no teclado. O que vivemos na infância, não fica na infância. As dores e emoções das crianças não podem e não devem ser silenciadas. 

Por fim, a Bruna adulta e mãe, percebeu o seu valor. Ela aprendeu que não precisa se esforçar para ser amada. Além disso, sabe que merece carinho, afeto e atenção. Atualmente, reconhece que é uma pessoa incrível.

Mas, lá no fundo, a Bruna filha grita por aceitação e ainda quer ser a escolhida de alguém. A ela, eu digo: - fique tranquila, eu pego em sua mão. E se minhas mãos estiverem ocupadas, pode vir em meu colo. Eu te escolho. Você não precisa competir com mais ninguém. 


E você? Conhece sua criança interior e as marcas que ela carrega?


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