O esmalte borrado
- Bruna Da Costa Pereira
- 1 de dez. de 2024
- 3 min de leitura
Era uma vez...Não, isso é para histórias fictícias. Este aqui é um fato real. Aconteceu comigo e pode acontecer com você. Vai ser possível perceber como um esmalte borrado pode te trazer muitas reflexões.
Certo dia, quando a Júlia tinha uns seis anos, mais ou menos, levei ela comigo para o salão de beleza pois tinha marcado horário com a manicure. Na inocência de uma mãe que não entendia as necessidades de sua criança, iludi-me achando que ela ficaria sentada me esperando durante uma hora ou mais.
Obviamente, não foi o que aconteceu. Ela sempre foi uma criança curiosa, do tipo que as pessoas julgam como mexilhona, sabe? Então, naquele paraíso de coisas diferentes e chamativas como acessórios e esmaltes, ela estava super à vontade e disposta a conhecer tudo. Para o desespero da mãe super controladora, eu estava ocupada e não podia intervir.
Além disso, a dona do salão não estava gostando daquela movimentação e mãozinhas curiosas da Jú. Ela sempre dizia algo que me fazia repreender minha filha; "isso é perigoso", "aquilo pode quebrar", "ela está mexendo ali". Aquela situação me deixou extremamente estressada. Imaginei o quanto àquelas pessoas me julgavam como péssima mãe porque minha filha não "obedecia".
A verdade é que a Júlia era uma criança em um ambiente novo e colorido. Impedir sua curiosidade seria cortar uma parte importante e incrível dela. Talvez se eu estivesse focada em entendê-la, eu tivesse conversado com ela em casa, teria levado alguns brinquedos ou perguntado como ela gostaria de passar essa hora me esperando (pintando, desenhando...). Porém, eu não estava atenta a isso.
Saí do salão super irritada. Com o sentimento de estar falhando na educação da minha filha. Eu estava preocupadíssima com o que as pessoas estavam comentando depois que saímos: "que menina desobediente e sem educação", "a mãe não tem controle sobre a filha"...Naquela época, eu me importava demais com o que pensavam de mim.
Foi então que, no auge do meu estresse, dos pensamentos negativos e autocríticos, minha filha esbarrou sem querer na minha mão e borrou o esmalte. Pronto. Foi o que faltava para que desse início a um episódio de descontrole emocional. Infelizmente, despejei toda minha raiva nela. Gritei, briguei, ameacei, bati.
Sim, eu bati na minha filha, a pessoa que eu mais amo no mundo, a luz dos meus dias. Eu bati em uma criança de seis anos. Simplesmente porque ela esbarrou em minha mão e borrou o esmalte sem querer. Por algo tão fútil. Algo que eu já fiz várias vezes. Acredito que você também. Quem nunca borrou a unha ao sair da manicure? Alguém (adulto) já apanhou por isso?
Após todo aquele estresse diminuir, eu chorei. Chorei feito criança. Como a minha filha fez quando me viu irritada. Como estou fazendo agora. Eu me arrependi, arrependo-me até hoje. Não sabia o que fazer. Estava me odiando cada vez mais. Liguei para uma pessoa próxima e contei o que tinha acontecido. Por ironia do destino (ou não), eu fui acolhida por essa pessoa. Ela me disse que aquilo era normal, e que, às vezes, é necessário que a criança apanhe.
Ou seja, a minha filha "mereceu" apanhar. Por ter sido criança. Por ter esbarrado em mim sem querer. Apenas por ter seis anos e ser menor que eu, mais vulnerável. Agora eu? Uma adulta descontrolada emocionalmente, estressada e errada naquela situação, merecia acolhimento e um tapinha nas costas? Percebe como a sociedade é injusta com as crianças?
Isso foi há seis anos, e eu me lembro de todos os detalhes. Como poderia esquecer o dia que eu fui injusta com a minha filha ? Sinto muito por ter sido tão cruel com a Júlia em sua primeira infância, momento tão importante do desenvolvimento infantil. Isso foi há seis anos, e eu nunca vou esquecer. Imagine ela.
Indicação de livro: A raiva não educa, a calma educa. Maya Eigenmann

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