A garrafa
- Bruna Da Costa Pereira
- 23 de mar. de 2025
- 3 min de leitura
Ontem, a Júlia quebrou uma garrafa. Era mais um sábado comum, de faxina, óbvio. Então, eu estava arrumando o quarto e ela, a cozinha. De repente, ouvi um barulho bem alto de vidro caindo no chão. Assustada, perguntei o que tinha acontecido e fui até lá.
Ao chegar na cozinha, minha filha contou o que tinha ocorrido. Sem querer, depois de encher a garrafa com água, ela a derrubou. Era impressionante a quantidade de cacos de vidro espalhados no chão, e a cozinha quase ficou inundada.
Quando vi aquela bagunça, pensei em reclamar: “Nossa, que horror! Você não presta atenção?” Confesso que até comecei a questionar como aquilo tinha acontecido. No entanto, percebi que a Júlia estava com uns cortes na mão.
Ela foi ao tanque para lavar o sangue. Os cortes não eram grandes, ainda bem. Ficamos ali fora um pouco até lavar tudo. Depois disso, a Júlia estava conversando e rindo da situação. Comecei a catar os cacos pela casa e ela foi deitar um pouco.
Para eu chegar nessa reação de ontem, precisei me autoeducar durante anos. Como um gatilho, situações como essa - derrubar/quebrar algo - despertavam em mim um comportamento agressivo, punitivo e violento. Logo, eu gritava e criticava minha criança.
Vejam só, algo tão natural e rotineiro, era o bastante para me fazer explodir e virar a opressora da minha filha. Lembro-me de ver os olhinhos dela arregalados, lacrimejando e com medo. Medo dos gritos, da minha reação, medo da pessoa em quem ela mais confiava.
Além disso, percebam que, quando são os adultos que derrubam e quebram algo, ninguém grita com eles. Nesse caso, não há humilhação, constrangimento, nem sermão. Possivelmente, alguém dirá : “tudo bem, isso acontece.”
É impressionante como só temos certas atitudes com crianças. Tendemos a pensar que elas são seres inferiores. Ao contrário, deveriam ser os pequenos os mais bem tratados da sociedade. Eles estão aprendendo e podem errar. Aliás, nós também.
Ao olharmos para dentro, podemos perceber nossos erros, falhas e vulnerabilidades. Não somos superiores apenas por termos alguns anos a mais. Quando algo dá errado, provavelmente, a criança já fica se sentindo mal o suficiente; não precisamos deixá-la pior.
“Ah, deveria ter prestado atenção”. Até o ser humano mais atento do mundo derruba algo de vez em quando. “Poderia ter evitado”, pois é, mas não foi. E é assim que os acidentes acontecem. Nenhuma lição de moral pode ser mais importante do que uma boa relação com um (a) filho (a).
Por vezes, fui rotulada de desastrada na infância e adolescência. Minha família usava a frase : “se não derrubar, não é a Bruna” quando algo assim acontecia. Sentia-me envergonhada. Aquelas palavras, “brincadeiras” e críticas só serviam para me deixar mal.
Além disso, minha mãe ficava brava e gritava ao menor sinal de barulho. Crescemos com exemplos de reações explosivas aos erros ou acidentes. Naturalizamos a violência. Desse modo, reproduzimos atitudes danosas aos nossos filhos e à nossa relação com eles.
Felizmente, eu mudei. Aprendi na terapia algo que se encaixa em momentos que estamos prestes a explodir. Pare e pense : o que vale mais, a garrafa (nesse caso) ou meu relacionamento com minha filha ? Você pode utilizar essa ideia para seu próprio contexto.
Enfim, escrevo para compartilhar minha satisfação por criar um ambiente mais leve e acolhedor em minha casa. Para demonstrar minha felicidade em aprender a ser uma mãe melhor para minhas filhas. Ah! E porque me senti extremamente orgulhosa de mim.
Eu consegui, responsabilizei-me, assumi meus erros, pedi desculpas e busquei a mudança em minha vida. Por mim, por minha filhas, minha família. Ontem, minha filha quebrou uma garrafa. Há um tempo, eu estou quebrando um ciclo.
Não é porque você aprendeu apanhando que você precisa ensinar batendo.



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