top of page

Mãe, estou com medo

  • Foto do escritor: Bruna Da Costa Pereira
    Bruna Da Costa Pereira
  • 3 de nov. de 2025
  • 2 min de leitura

Era noite, hora de dormir. Quarto escuro, ar-condicionado ligado, a Manuela estava deitada segurando minha mão. Na outra mãozinha, a mamadeira. Em meio ao silêncio, ouvi: 

— Mamãe, estou com medo.


Ela não sabia, mas aquelas palavras me trouxeram muitas lembranças e sentimentos.


No post anterior, falei sobre a saudade da minha mãe. Ela faleceu em 2017, em decorrência de um câncer. Aquela época deixou inúmeras marcas: internações, consultas, exames, desesperança, incertezas, angústia e os incontáveis (últimos) dias na UTI.


Diante do pior cenário da minha vida, vi minha mãe em momentos de extrema fragilidade. Certa tarde, estávamos conversando — ela sentada, com o auxílio do oxigênio para respirar, e eu, ao lado, pedindo em silêncio para aquele pesadelo acabar.


Com o olhar mais doce do mundo, ela me disse: — Eu estou com medo.


Juntei os pedaços do meu coração e perguntei: — Medo? Medo do quê? 


— Medo de morrer. Estou piorando. Silêncio. 


Com os olhos marejados, neguei. Menti. Para ela e para mim. Disse que tudo iria melhorar, que estávamos ali com ela. Fiz um carinho em seu rosto e encarei seu olhar apavorado.


Ainda me pergunto se agi da melhor maneira, se fiz tudo o que podia, ou se deixei de fazer algo. E sei que nunca terei essas respostas.


A verdade é que ninguém se prepara para despedidas precoces e dolorosas como aquela. Não há um "jeito certo" de reagir quando tudo que queremos é não vivenciar a situação.


Hoje, enxergo beleza onde antes só via desgraça.

Há encanto em ser a segurança de alguém. Naquele momento de medo, minha mãe me mostrou sua força.


Ao assumir sua fragilidade, confiou em mim — não para resolver, mas para ter com quem contar.


Muitas vezes acreditamos na ilusão de que precisamos saber de tudo e resolver os medos dos nossos filhos. Mas, na verdade, o mais importante é estar presente — atentos e disponíveis.


Quando a Manuela disse que estava com medo, perguntei: 

— Medo do quê?,


Deixei que ela falasse, sem pressa, sem a urgência de resolver. Apenas escutei.

Fiz questão de mostrar que eu estava ali para protegê-la. Permiti que sentisse isso.


Na maternidade e na vida, em muitos momentos não teremos a resposta “certa”.

Enfrentaremos desafios em que não saberemos o que fazer — e talvez nem seja preciso.


Mas, ao ouvir um “estou com medo", silencie sua razão. Esqueça frases prontas como “não precisa ter medo”. 


Contemple o momento e sinta-se honrada, essa pessoa confia em você. Lembre-se da magia em ser o porto seguro de alguém.


bottom of page