Apenas um dia ruim
- Bruna Da Costa Pereira
- 24 de fev. de 2025
- 3 min de leitura
Ontem foi domingo. E, ultimamente, dou muito mais valor aos finais de semana. Comecei a trabalhar o dia todo, Manuela foi para uma escola em tempo integral, Wil trabalha bastante e a Júlia tem escola, balé e treinos de vôlei. Portanto, são dois dias com a família reunida em casa; todos livres para brincar, rir, conversar e passar tempo juntos.
No entanto, ontem não foi um dia tão bom para a Júlia. Desde o começo da manhã, percebi que ela estava um pouco cabisbaixa, perguntei se tinha acontecido alguma coisa e ela me disse : "nada". Apenas continuou com a cabeça e os braços escorados na mesa da cozinha. Insisti e questionei o motivo de ela estar daquele jeito; disse-me que estava com sono.
Contraditoriamente, ela quase nunca dorme durante o dia. Aliás, nessa fase de fim da infância/começo da adolescência, nem à noite ela está dormindo bem. De vez em quando, dorme muito tarde. Às vezes, perde o sono e acorda muito cedo. Enfim, está vivendo um período de grandes mudanças (físicas, emocionais, hormonais), e isso se reflete no comportamento.
Fato é que não estamos preparados para vermos nossa criança serelepe, sorridente e animada se transformar em um adolescente vivendo em uma montanha russa de emoções. Mães e pais tendem a acreditar que os filhos sempre serão bebês e isso não é real. Não pode ser. Filhos crescem; mudam, erram, acertam, choram, sorriem, gritam. O quê? Gritam?!
Voltando ao nosso domingo, depois do almoço a Júlia quis comprar picolé. O dia estava bem quente. Levei-a na sorveteria. Ela voltou toda sorridente, por um momento, pensei que o motivo de ela estar diferente pudesse ser apenas vontade de comer doce. E até poderia ser, não fossem os próximos episódios desse dia.
O fim de tarde estava quase chegando, o dia continuava quente. Tipicamente um dia verão. Até pela chuvinha no entardecer. Como vi que estava para chover, chamei a Júlia para recolher uns lixos do quintal e jogar na lixeira. Ela foi, um pouco contrariada, mas foi. Não sei exatamente o que a fez ficar bem irritada e ela deu um grito. Zangada, voltou para o seu quarto.
Passados alguns minutos, ela apareceu na cozinha. Ficou me olhando do outro lado do balcão que eu estava. Perguntei o que ela queria dizer. Depois de hesitar por alguns momentos, ela disse : "desculpe por eu ter gritado". Olhei para ela, disse que estava tudo bem e nos abraçamos. Ainda, disse-me que calor a irritava.
Portanto, tive a ideia de ligar o ar condicionado e passar um tempo lá com ela. Nem preciso dizer que ela adorou. Wil fez pipoca e passamos um tempo juntos. Nós quatro. Comendo pipoca e curtindo a companhia um do outro, conversando e rindo. Depois, brincamos de esconde-esconde. No quarto mesmo, para não sair do geladinho.
No fim do dia, eu me lembrei de quantas vezes eu tinha gritado com a Jú. Por inúmeros motivos. Momentos de descontrole, impaciência, incompreensão. Lembrei-me, também, que eu nem ao menos pedia desculpas. Infelizmente, eu achava que existia hierarquia de poder entre mãe e filho (a). Abusava da minha autoridade para ser autoritária.
Refleti que eu já tive (tenho e terei) muitos dias ruins. Dias em que eu gritava por "nada". Dias onde qualquer mínimo desconforto parecia impossível de lidar. Nesses dias, geralmente, descontamos nossa frustração nas crianças. É em nossos dias ruins que fazemos nossos filhos se sentirem piores. Eu já fiz muito isso. E todos os dias me esforço para não mais fazê-lo.
Percebi o quanto "dias ruins" são importantes. São eles que nos conectam, mostram nossa imperfeição, vulnerabilidade e necessidade de apoio e acolhimento. Se, ao invés, de ter abraçado minha filha, eu a tivesse dado uma bronca, perderia uma grande oportunidade. A oportunidade de mostrá-la que um erro não a define. E que eu a amo. Até em seus dias ruins.
E você, como costuma agir em dias ruins? E seus filhos? Eles têm oportunidade de errar, refletir e se desculpar? Compartilhe sua experiência nos comentários.



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