top of page

"Chegou agora e quer sentar na janela?"

  • Foto do escritor: Bruna Da Costa Pereira
    Bruna Da Costa Pereira
  • 6 de dez. de 2024
  • 3 min de leitura

Nos últimos dias, não se fala em outra coisa: o caso da janela do avião. Resumindo, uma mulher não cedeu seu lugar (ao lado da janela) para uma criança. Resultado? Choro e frustração da criança, barraco entre adultos, filmagem sem permissão e exposição da passageira nas redes sociais.

Obviamente, podemos tirar ensinamentos dessa situação. Algo que me incomoda muito é o fato de a maioria da sociedade odiar criança. Parece que é permitido, sabe? Mais que isso, parece ser aprovado esse ódio despejado aos pequenos. "Criança não tem querer". Quem nunca ouviu ?

Lógico que entendo a postura da passageira. O assento era dela. Ela pagou por ele. Por isso, tinha todo o direito de não sair. Compreendo que quando programamos uma viagem, queremos que tudo saia conforme o planejado. Não julgo o comportamento dela, e talvez, eu tivesse a mesma reação.

Porém, cadê a empatia quando se trata de criança? Choro, birra e intensa frustração fazem parte do desenvolvimento humano. Sim, é isso mesmo: CRIANÇA CHORA. E saber disso facilita a vida de adultos e crianças.

Quando se é pequeno, uma viagem de avião dá medo, insegurança. Assim como, não conseguir sentar onde gostaria pode desencadear uma grande insatisfação. Comportamentos naturais e esperados para um ser humano em formação, o qual não possui ferramentas para lidar com sentimentos intensos.

Diante disso, o que poderia ser feito? Preciso deixar claro que é responsabilidade dos pais comprar um assento que seu filho goste. Caso não consiga, pode pedir para que outro passageiro troque de lugar com sua criança? Pode. A pessoa precisa aceitar? Não. A criança precisa entender e não ficar chateada ? Não, e nem vai.

Em meu ponto de vista, o mais importante ali deveria ser acolher a criança, tentar acalmá-la e ensiná-la sobre limites e respeito. "Tudo bem, entendo que você queira muito sentar naquele assento, porém, ele está ocupado. Sinto muito. Quer um abraço? Podemos ler ou brincar depois que se acalmar, que tal?"

Ao invés de transformar a cena em um estresse ainda maior, a pessoa que filmou deveria estar preocupada com o bem estar da criança. Gravar, insultar a passageira e postar o vídeo nas redes só trouxe exposição da criança. Já imaginou se alguém posta um vídeo seu em um momento de choro e vulnerabilidade?

Com isso, surgiram os "inimigos da infância". Adultos que não conseguiram ser livres para sentir na infância, e agora, não suportam o fato de ver crianças chorando e expressando seus sentimentos. "Mimada, birrenta", os inimigos da infância estão sempre esperando uma oportunidade para despejar sua raiva e frustração em um pequeno ser humano.

Confesso que já fui esse tipo de adulto. Não suportava choro ou reclamações. Pensava que o correto era eu falar, e a criança obedecer. Sem contestar. Birra? Era "resolvida" com palmadas. Como muitos adultos, eu também fui silenciada na infância. "Não tem motivos para chorar", "engole esse choro", "quer chorar? vou te dar um motivo", frases que marcaram os primeiros anos de grande parte da população.

Por fim, convido você a refletir sobre a educação oferecida às crianças. Além de observar ao seu redor como os pequenos são tratados. "Cresça e apareça", "chegou agora e quer sentar na janela?"... Qual a necessidade de diminuir uma criança ? Como esperamos que sejam empáticas e gentis se somos grosseiras (os) com elas?

Este texto não é apenas sobre a janela de um avião. Tampouco para julgar certos e errados naquela situação. Escrevo para que tenhamos o mínimo de respeito pelas crianças, por suas vivências, por seus aprendizados. Você pode até não se lembrar, mas já foi uma criança chorando querendo colo, afeto, presença, abraço, um brinquedo ... Ou um assento na janela.


"De onde tiramos a ideia absurda de que, para levar uma criança a agir melhor, antes precisamos fazê-la se sentir pior?" Jane Nelsen

 
 
 

Comentários


bottom of page