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Desisti do mestrado

  • Foto do escritor: Bruna Da Costa Pereira
    Bruna Da Costa Pereira
  • 16 de dez. de 2024
  • 4 min de leitura

Você já teve a sensação de tentar dar conta de tudo e, no fim, perceber que é impossível? Eu, sim. Foi exatamente isso que eu senti quando tomei a decisão de desistir do mestrado. Vou te contar como aconteceu.

Bom, tudo começou no final do ano passado, quando tive a ideia de participar da seleção de um programa de Mestrado Profissional. Sempre tive vontade de fazer uma pós-graduação stricto sensu. Porém, quando conclui a graduação, minha primogênita tinha pouco mais de um ano e renunciei àquele sonho na época.

Para ingresso no programa, a seleção ocorreu por meio de uma prova objetiva. Para realizá-la, precisei ler e reler vários textos, assistir vídeos, fazer mapas mentais e realizar algumas questões. Meu tempo de estudo acompanhava as sonecas da Manuela. Estudei bastante. Conforme minha disponibilidade de tempo.

Apesar de não ter ideia de como conciliaria trabalho, estudos, casa e crianças, estava com muita vontade de passar e entrar no curso. Com o mestrado, eu teria um bom aumento salarial. Além do título de mestra, é claro.

Viajei para Cuiabá para participar do processo seletivo. Estava confiante. Como já havia realizado alguns concursos antes de passar para o meu cargo, sentia-me familiarizada com provas. O resultado estava previsto para março de 2024.

Aguardei ansiosa pela divulgação das notas. Wil, meu marido, estava certo de minha aprovação. Eu, nem tanto. Sabia da dificuldade da prova e era a minha primeira tentativa.  Mas para minha surpresa, eu passei. Demorei um pouco a acreditar.

De fato, fiquei superfeliz! Uma sensação de dever cumprido tomou conta de mim. Percebi o quanto era capaz. Não sabia o que esperar dali para frente, estava muito empolgada para pensar nisso. Matriculei-me.

Depois de ter adiado esse sonho por anos, imaginei que este seria o momento ideal para voltar às atividades de pesquisa. Eu amo estudar. Faço cursos com frequência e tenho duas especializações.

No entanto, sentia falta da sala de aula, das discussões com professores e colegas, trabalhos em grupo, de toda aquela energia caótica de estudante.


O início de um sonho

Comecei minha jornada como mestranda. Moro no interior e as aulas ocorriam na capital do estado; então, a cada quinze dias, precisava viajar para Cuiabá e passar dois dias lá.

Naquele tempo, a Manuela tinha menos de dois anos. Ela ainda mamava no peito e era muito apegada a mim. Algo natural entre mãe e bebê. Mas devido a isso, a cada viagem, surgia a culpa. Sabia que minha ausência seria ruim para ela, apesar de ter o pai e a irmã por perto.

Inclusive, foi durante uma dessas aulas que ela desmamou. Quando eu cheguei da viagem, ela recusou o mamá. Assim, migrou para a mamadeira.

Não tenho certeza se foi um processo natural, por ela ter completado dois anos, ou ocorreu devido às minhas frequentes ausências. De novo, a culpa.

Além da dificuldade das viagens, o fato de não ter rede de apoio na cidade fez com que o Wil ficasse sobrecarregado. Na verdade, até a Júlia passou a cuidar mais da Manuela para que eu pudesse estudar. Principalmente durante os dias que eu estava longe de casa.  

Nessas ocasiões, Wil precisava trabalhar, cuidar da casa e das crianças. Tivemos, aproximadamente, meia dúzia de babás até hoje. Algumas pediram para sair, outras, dispensamos. A cada troca de babá, um tempo sem nenhuma ajuda.

Até então eu estava tentando ser positiva e me acostumar com as viagens, os gastos, o cansaço e a culpa. Tentava me convencer de que era o certo a fazer. Pensava que, no futuro, agradeceria por ter continuado.

Acontece que, além das aulas presenciais, havia as atividades a serem realizadas de forma remota. Entre livros e artigos, eu ainda precisava cuidar da Manuela, arrumar a casa, levar a Júlia no balé, trabalhar, escrever, corrigir, ter tempo para mim e descansar.

Nessa tentativa de equilibrar meus pratos, meu marido foi essencial. Aliás, não fosse por ele, eu teria desistido bem antes. Tentamos fazer dar certo, reorganizamos a rotina, ajustamos os horários, pedimos a colaboração da Júlia.

Contudo, viver nesse malabarismo estava me fazendo mal. Não conseguia me acostumar com o caos. Percebi que necessito de previsibilidade e organização. Nenhum dos dois estavam acontecendo.


Deu tudo certo

A gota d’água, para mim, ocorreu no dia que me dei conta do quanto estava irritada e sem paciência com as minhas filhas. Algo que lutei por meses para mudar.

Aquilo me deixou muito abalada. Chorei. Naquele dia, isolei-me no quarto, culpei-me, senti-me a pior mãe do mundo. Duvidei se aquele título valeria a pena se eu perdesse meu relacionamento com as meninas.

Dessa forma, mandei mensagem para a minha psicóloga. Para minha sorte, ela me atendeu no mesmo dia. Cheguei lá com os olhos vermelhos de chorar.

Expus a situação. Expliquei que a pressão me destruiria. Ou acabaria com minhas relações. Ela se assustou por me ver tão transtornada. Há mais de um ano eu não aparecia assim no consultório.

Pudera, eu precisava escrever um artigo e não conseguia. A Manuela queria brincar e eu não podia. Não acompanhava as atividades do mestrado e nem a primeira infância da minha filha.

E, por fim, desisti do mestrado. Compreendi que, assim como não quis renunciar aos primeiros anos da Júlia para ser mestra. Não seria justo fazer isso com a Manuela. Eu preferi estar presente em casa a estar nas aulas.

Confesso que senti vergonha ao pensar em contar às pessoas sobre a minha decisão. Nem todos entenderam. Citei na terapia o quanto me preocupava com a opinião alheia. Acontece que minhas escolhas não precisam fazer sentido para ninguém além de mim.

Afinal, eu poderei concorrer de novo à vaga. Participar de outra seleção. Ingressar em outro momento. Só não poderei repetir os primeiros anos da minha filha. Terei outras oportunidades para estudar. Já a Manuela não terá para ser criança.


E você? Já deixou de realizar algo em prol do seu filho? Como se sentiu?


"É justo que muito custe, o que muito vale". Santa Teresa D'ávila.

 
 
 

2 comentários


Thaquiana Salomao Machado
Thaquiana Salomao Machado
22 de dez. de 2024

Isso me faz lembrar a época que minha filha tinha 4 anos, éramos só ela e eu. Eu estava cursando uma especialização e precisava muito para o aumento salarial. Não foi fácil deixar, ora com babá, pra com amigas, sei q ela tbm sofreu pelos um ano e meio, mas foi muito necessário. Quando puder volte para o mestrado, é muito gratificante. Bjs

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Bruna Da Costa Pereira
Bruna Da Costa Pereira
22 de dez. de 2024
Respondendo a

Volto, sim. 😍

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