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"Limpou igual sua cara"

  • Foto do escritor: Bruna Da Costa Pereira
    Bruna Da Costa Pereira
  • 1 de mar. de 2025
  • 3 min de leitura

Neste post, vou falar sobre a “educação tradicional”. Ou “educação raiz”, como muitos gostam de chamar. Provavelmente, você foi criada (o) nesse tipo de educação; gritos, ameaças, humilhações, palmadas e castigos. Ah! E não posso esquecer da hierarquia de poder; onde o adulto manda e a criança obedece. 

Acontece que, com o passar do tempo, normalizamos a falta de respeito com a qual as crianças eram e ainda são tratadas. Como aprendemos com nossos pais (ou cuidadores) o que é o amor; amamos nossos filhos nessas mesmas medidas. Vou contar mais uma história com a minha primogênita, a grande mestra da minha vida.

Era um sábado qualquer, dia faxina na maioria dos lares brasileiros. A Júlia tinha uns oito anos. Como eu estava limpando outros cômodos da casa, pedi para que ela limpasse o banheiro. Prontamente, ela foi. Quando terminou, eu fui lá conferir o trabalho. Ao reclamar de algumas coisas, disse para ela: “limpou igual sua cara”.

Eu preciso confessar algumas coisas antes de seguir contando essa história. Primeiramente, limpar a casa é algo que me dá gatilho para a raiva. Desde muito nova fui cobrada para fazer serviços domésticos e precisava atender às expectativas da minha mãe (impossível). Uma mulher perfeccionista, sobrecarregada, irritada e cansada, essa é minha memória com ela nos dias de faxina.

Sempre me sentia mal naqueles dias. Achava-me inadequada, como se tudo que eu fizesse fosse errado. Minha mãe estava sempre nervosa comigo, dizendo-me o que e como fazer para que tudo ficasse perfeito. Lembro-me daquela tensão. Como toda criança ou adolescente, eu queria fazer outras coisas, não me interessava muito por aquele serviço e fui rotulada de preguiçosa por isso. 

A segunda confissão é que carrego esses sentimentos até hoje. Infelizmente, sinto muita angústia e tensão nos dias de limpeza. Começo a dar ordens sem parar e fico muito irritada com tudo e todos. Coração disparado, respiração ofegante…Às vezes, eu nem sei o motivo pelo qual reajo assim. Tento pensar que é só uma faxina, mas quando vejo, já estou reativa. 

Após essa contextualização, da qual não me orgulho, ficará mais fácil entender o motivo de eu ter falado com a minha filha de forma desrespeitosa. Com uma frase eu a diminuí, ignorei todo o trabalho dela, todo seu esforço e dedicação. Eu não pensei, apenas repeti o que ouvia. Ao invés de agradecê-la, eu a critiquei. E a magoei. 

Não podemos cobrar das crianças que realizem as tarefas domésticas do jeito que os adultos fazem. Assim como, não é justo deixarmos de reconhecer a importância da colaboração dos pequenos (as). Mesmo que o serviço não seja feito da forma como faríamos, precisamos nos lembrar de que aquele é o melhor que nossa criança pode oferecer.

Depois de um tempo daquela situação, caí em mim. Percebi que tinha errado e fui conversar com a Júlia. Ela me disse que não estava chorando porque eu tinha gritado ou por eu ter me irritado com ela. O motivo do choro? “Porque a senhora disse ‘limpou igual sua cara’”. Doeu. Dói perceber como podemos magoar tanto quem mais amamos. 

Uma frase. Que para mim, era absolutamente normal. Palavras que eu estava acostumada a ouvir da minha mãe. Uma ofensa que eu normalizei. E repeti. E voltaria a repetir não fosse a minha filha ser a potência que é. Uma menina autêntica, empoderada, forte. Uma criança que fala quando se sente ofendida, que se posiciona e que me ensina a ser melhor. 

Naquele dia, eu pedi desculpas a ela. Ainda, prometi que jamais diria aquela frase novamente. Cumpri a promessa. Esforçar-me-ei para cumpri-la enquanto eu viver. Diariamente, estou rompendo padrões desrespeitosos na criação das minhas filhas. Em alguns dias, duvido de mim, que sou uma boa mãe. Porém, quando lembro-me dessas histórias e do quanto mudei, tenho a certeza de que estou no caminho certo, fazendo o meu melhor. 


2 comentários


Izabella Xavier
Izabella Xavier
02 de mar. de 2025

Me emocionei c seu texto!

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Bruna Da Costa Pereira
Bruna Da Costa Pereira
02 de mar. de 2025
Respondendo a

Obrigada, Izabella. 😊

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