top of page

Pós-cirúrgico de uma mãe

  • Foto do escritor: Bruna Da Costa Pereira
    Bruna Da Costa Pereira
  • 3 de mar. de 2025
  • 3 min de leitura

Ao nos tornarmos mães, percebemos que tudo muda: a rotina, a alimentação, o sono, o dia a dia. Nossa vida se transforma completamente com a chegada de um filho ou uma filha. Apesar da maravilha que é maternar, precisamos admitir que os desafios são muitos – e as dificuldades também. Até mesmo realizar uma cirurgia se torna mais complexo.

No dia 3 de fevereiro, passei por uma cirurgia chamada colecistectomia, mais conhecida como retirada da vesícula. O procedimento foi minimamente invasivo, realizado por vídeo, sem cortes. Ainda assim, exigiu um período de repouso para a recuperação completa.

Esse período incluiu quinze dias afastada do trabalho e a impossibilidade de carregar peso por trinta dias. A recomendação médica foi clara: "Se tiver criança, não a pegue no colo." E foi justamente essa recomendação que tornou o meu pós-cirúrgico ainda mais desafiador.

Como moro no interior, precisei viajar até a capital para realizar a cirurgia. Passei uma noite no hospital e, no dia seguinte, pude voltar para casa. Fiquei feliz e aliviada por estar perto da minha família. No entanto, algumas mudanças foram inevitáveis.

Logo percebemos que Manuela, minha filha mais nova, estava diferente. Pudera! De repente, ficou dias sem a mãe e, quando voltei, estava com curativos na barriga, sentindo dores e sem poder pegá-la no colo. Às vezes, precisamos deixar o egoísmo de lado e tentar enxergar a situação pelo olhar da criança – é difícil para ela também.

Como toda criança de dois anos, Manuela tem dias em que chora por tudo e por nada. Quem está vivendo essa fase sabe. Não que isso seja um grande problema; quando entendemos o que esperar de cada fase da infância, tudo fica mais leve. No entanto, desde minha cirurgia, ela tem chorado com mais frequência e buscado mais o colo do pai.

Na escola, também notamos mudanças. Desde o começo do ano, sua adaptação escolar vinha sendo tranquila – entrava sorridente e animada. Mas, após meu retorno ao trabalho e sua mudança para o período integral, surgiram episódios de choro, reclamações e explosões emocionais.

Algumas vezes, seu choro durou tanto que precisei buscá-la na escola. Sempre que me via, pedia colo. Eu explicava que ainda não podia pegá-la. Em casa, a qualquer sinal de frustração, ela voltava a pedir colo e encontrava aconchego nos braços do pai. Houve momentos em que pensei que ela não gostava mais de mim. E inúmeras vezes senti culpa.

Certo dia, deitada na cama, olhei para minha barriga e disse a ela que logo estaria melhor, que ficaria "perfeita". Manuela me olhou e perguntou: "Perfeita para me pegar no colo?" Foi nesse momento que percebi o quanto ela sentia falta desse contato.

Pouco depois, ela começou a contar uma história sobre um urubu. Manuela adora inventar personagens. No meio da brincadeira, disse que o urubu queria colo da mãe. Em seguida, completou: "Não, urubu, a mamãe fez cerurgia." As crianças nos contam suas dores de muitas formas – precisamos escutá-las com atenção.

Finalmente, o grande dia chegou. Os trinta dias da cirurgia passaram. Agora, posso oferecer o tão esperado colinho. Mal sabe Manuela que senti tanta falta quanto ela.

Na semana passada, conversei com Júlia, minha filha mais velha, sobre tudo isso. Refletimos sobre as mudanças no comportamento da Manuela desde que viajei para operar. Concordamos sobre a importância do colo e o impacto que sua ausência tem na vida da criança.

Isso me fez lembrar o quanto, muitas vezes, somos incentivadas a limitar o afeto, a negar acolhimento para que nossos filhos "não fiquem mal-acostumados". Mas tenho um recado para você: colo não estraga ninguém. O que "estraga" uma criança é ficar sem.

Portanto, não dê ouvidos a palpites que te afastam do seu filho ou filha. Não acredite no conselho de deixar a criança chorando para que ela aprenda. Acolha sempre que puder. Abrace. Beije. Dê colo.

Quero que minhas filhas saibam que podem me procurar quando precisarem. Quero que confiem em mim. Quero acolhê-las sempre – mesmo quando já não couberem no meu colo. Crio-as com respeito, para que, quando algo der errado, corram para mim, e não de mim.


Últimas atualizações: hoje de manhã peguei a Manuela no colo. Ela disse: "sarou o dodói"?

Ela não sabe, mas me cura todos os dias.

 
 
 

Comentários


bottom of page